sábado, 21 de março de 2026

Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, e nossa vida breve é circundada pelo sono.

Esta é a cena em que o mago Próspero (personagem que o próprio Shakespeare teria escrito como uma despedida dos palcos) interrompe uma celebração mágica que havia criado para o casal Ferdinand e Miranda.

Ao perceber que sua "magia" era apenas uma ilusão passageira, ele profere um dos discursos mais metafísicos da literatura mundial. É um texto que encerra perfeitamente a jornada de um mestre como Juca de Oliveira, que também "evocou espíritos" (personagens) para encantar o público por décadas.

A Tempestade (Ato IV, Cena I)
Tradução de Carlos Alberto Nunes

PRÓSPERO:

"Pareceis, meu filho, um tanto emocionado,
como se estivésseis tomado de algum susto.
Sossegai; nossos festejos terminaram.
Estes nossos atores, como eu disse,
eram todos espíritos, e se dissolveram no ar,
no ar sutil; e, tal como o edifício sem base
desta visão, as torres coroadas de nuvens,
os palácios suntuosos, os templos solenes,
o próprio grande globo, sim, e tudo o que ele herda,
se dissolverá, e, como este espetáculo insubstancial
desvaneceu, não deixará sequer um rastro atrás de si.
Somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, 
e nossa vida breve é circundada pelo sono."
 
Reflexão sobre o texto e Juca de Oliveira
 
"Estes nossos atores eram todos espíritos": Juca deu vida a dezenas de "espíritos" — de Nino a Albieri. Hoje, esses personagens retornam ao campo da memória, mas deixaram uma marca permanente na cultura.
 
"O próprio grande globo": Shakespeare referia-se ao seu teatro (The Globe) e ao planeta. Para Juca, o palco e o mundo eram indissociáveis. Ele viveu a vida com a consciência de que tudo o que construímos materialmente pode sumir, mas a experiência do "espetáculo" permanece.
 
"A matéria dos sonhos": Esta frase define a profissão do ator. Juca não trabalhava com tijolos, mas com a imaginação do público. Ele forjou realidades a partir do "nada" da ficção.

O Contexto da Cena

Na peça, Próspero usa sua magia para criar uma "mascarada" (uma pequena peça dentro da peça) com deusas e ninfas. Quando ele se lembra de uma conspiração contra sua vida, ele faz a magia desaparecer subitamente. O texto acima é o seu pedido de desculpas aos jovens por ter quebrado o encanto, lembrando-os de que a própria existência humana é, de certa forma, uma "peça" divina que um dia se encerra no sono da morte.

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