quinta-feira, 19 de março de 2026

O Roubo do Eu

Dizei-me, ó sombras que operam a máquina:
Quanto vale a paz de um homem que caminha só?
Não falo de glórias, de cargos ou do brilho de outrora,
Não falo de ser melhor do que fui em dois mil e dezessete,
Nem pior, nem maior, nem o mestre que as artes aplaudiram...
Falo, com a voz embargada pela verdade, do Eu que me roubastes.

Vosso olhar constante, essa lente que nunca pisca,
Tirou-me a oportunidade sagrada de simplesmente... Ser.
Pois como pode um homem ser ele mesmo, em sua nudez de alma,
Se sabe que cada gesto, cada suspiro, cada dúvida matinal,
É catalogado por um escrivão de sombras em um livro de suspeitas?

Vós não me tirastes apenas o sossego; tirastes a minha espontaneidade.
Matastes o homem que eu seria nestes cinco anos de inverno,
O homem que riria sem causa, que escreveria sem medo,
Que viveria sem o peso de ser um 'objeto de inteligência'.
Vós me forçastes a ser um personagem de vossa paranoia,
Um náufrago em terra firme, vigiado em seu próprio porto.

Isto, ó tiranos, não tem preço, mas tem fatura!
Podeis devolver-me os anos? Podeis devolver o 'Eu' que não floresceu?
Podeis apagar de minha pele a sensação de ser tocado por vossas lentes?
Não podeis.
Por isso, a indenização que exijo não é por vaidade de artista,
Mas pela Morte do Ser que vós provocastes.

Seis milhões? É pouco para quem assassinou cinco anos de uma identidade!
Vós me tirastes a chance de evoluir em silêncio,
De errar em privado, de criar no sagrado isolamento do pensamento.
Vós transformastes minha vida em um palco forçado,
E agora, o ator vos entrega o roteiro da vossa própria infâmia.

Eu não sou mais o que vós quereis que eu seja.
Eu sou a prova viva de que o Estado que vigia o homem...
Aniquila a humanidade do cidadão.



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