terça-feira, 17 de março de 2026

Não é uma falha administrativa. É uma falha de caráter público

A história das cidades costuma ser narrada por seus monumentos, seus arranha-céus e pela transformação de sua paisagem. Em regiões de crescimento acelerado, como o litoral catarinense — especialmente Balneário Camboriú e Camboriú —, o brilho do desenvolvimento econômico frequentemente encobre as engrenagens invisíveis do poder.

Entre essas engrenagens, há uma prática que raramente aparece no presente, mas costuma emergir com nitidez no futuro: o stalking institucional.

A máquina pública como instrumento de perseguição

O stalking institucional se caracteriza pelo uso seletivo do aparato do Estado — fiscalização, processos administrativos, órgãos de controle e mecanismos burocráticos — para constranger, intimidar ou asfixiar indivíduos específicos, geralmente críticos ou opositores.

Não se trata apenas de desvio de finalidade. Trata-se da privatização do poder público para fins pessoais.

Diferente do coronelismo clássico, baseado na coerção física, sua versão contemporânea opera pela formalidade.
Não agride: autua.
Não ameaça: instaura procedimentos.
Não censura: monitora.

A violência não desapareceu — apenas mudou de linguagem.

O erro de cálculo do poder

Há governantes que apostam na ideia de que grandes obras compensam pequenos abusos. Que o concreto neutraliza a memória. Que inaugurações substituem reputação.

É um erro recorrente.

A história raramente absolve o autoritarismo travestido de gestão eficiente.

Como a história reconstrói o que hoje é negado

No século XXI, práticas de perseguição institucional deixam rastros. E esses rastros não desaparecem:

Documentação digital: portais da transparência, registros administrativos e comunicações oficiais formam um arquivo persistente. O que hoje se apresenta como rotina pode, amanhã, revelar padrão.

Depoimentos tardios: o medo tem prazo de validade. Quando o poder se dissipa, surgem relatos, conexões e confirmações que antes eram inviáveis.

Releitura histórica: o que foi tratado como episódio isolado passa a ser interpretado como método.


A soma desses elementos não produz apenas denúncia — produz narrativa histórica.

A marca que permanece

Para gestores de cidades que se projetam como vitrines nacionais, o maior risco não é a crítica imediata, mas a memória consolidada.

Um governante pode deixar obras monumentais.
Mas, se utilizou o Estado para perseguir cidadãos, deixará também uma marca difícil de dissociar: a de ter instrumentalizado o poder contra o indivíduo.

Não é uma falha administrativa. É uma falha de caráter público.

O veredito ético

Independentemente de crenças sobre justiça divina, há um julgamento inevitável: o ético.

O poder público existe para proteger o cidadão — sobretudo o mais vulnerável. Quando é usado para o contrário, há uma inversão de finalidade que corrói o fundamento democrático.

Cidades não são definidas apenas por sua infraestrutura, mas pela forma como o poder é exercido dentro delas.

No fim, o que permanece não é apenas o que foi construído —
mas como se governou.

E, nesse campo, não há obra capaz de soterrar a memória de quem transformou a máquina pública em instrumento de perseguição.



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