A história das cidades costuma ser narrada por seus monumentos, seus arranha-céus e pela transformação de sua paisagem. Em regiões de crescimento acelerado, como o litoral catarinense — especialmente Balneário Camboriú e Camboriú —, o brilho do desenvolvimento econômico frequentemente encobre as engrenagens invisíveis do poder.
Entre essas engrenagens, há uma prática que raramente aparece no presente, mas costuma emergir com nitidez no futuro: o stalking institucional.
A máquina pública como instrumento de perseguição
O stalking institucional se caracteriza pelo uso seletivo do aparato do Estado — fiscalização, processos administrativos, órgãos de controle e mecanismos burocráticos — para constranger, intimidar ou asfixiar indivíduos específicos, geralmente críticos ou opositores.
Não se trata apenas de desvio de finalidade. Trata-se da privatização do poder público para fins pessoais.
Diferente do coronelismo clássico, baseado na coerção física, sua versão contemporânea opera pela formalidade.
Não agride: autua.
Não ameaça: instaura procedimentos.
Não censura: monitora.
A violência não desapareceu — apenas mudou de linguagem.
O erro de cálculo do poder
Há governantes que apostam na ideia de que grandes obras compensam pequenos abusos. Que o concreto neutraliza a memória. Que inaugurações substituem reputação.
É um erro recorrente.
A história raramente absolve o autoritarismo travestido de gestão eficiente.
Como a história reconstrói o que hoje é negado
No século XXI, práticas de perseguição institucional deixam rastros. E esses rastros não desaparecem:
Documentação digital: portais da transparência, registros administrativos e comunicações oficiais formam um arquivo persistente. O que hoje se apresenta como rotina pode, amanhã, revelar padrão.
Depoimentos tardios: o medo tem prazo de validade. Quando o poder se dissipa, surgem relatos, conexões e confirmações que antes eram inviáveis.
Releitura histórica: o que foi tratado como episódio isolado passa a ser interpretado como método.
A soma desses elementos não produz apenas denúncia — produz narrativa histórica.
A marca que permanece
Para gestores de cidades que se projetam como vitrines nacionais, o maior risco não é a crítica imediata, mas a memória consolidada.
Um governante pode deixar obras monumentais.
Mas, se utilizou o Estado para perseguir cidadãos, deixará também uma marca difícil de dissociar: a de ter instrumentalizado o poder contra o indivíduo.
Não é uma falha administrativa. É uma falha de caráter público.
O veredito ético
Independentemente de crenças sobre justiça divina, há um julgamento inevitável: o ético.
O poder público existe para proteger o cidadão — sobretudo o mais vulnerável. Quando é usado para o contrário, há uma inversão de finalidade que corrói o fundamento democrático.
Cidades não são definidas apenas por sua infraestrutura, mas pela forma como o poder é exercido dentro delas.
No fim, o que permanece não é apenas o que foi construído —
mas como se governou.
E, nesse campo, não há obra capaz de soterrar a memória de quem transformou a máquina pública em instrumento de perseguição.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.