Memória e Gestão: Por uma Fundação Cultural de Estado, não de Governo
O cargo de Coordenador de Artes na Fundação Cultural de Balneário Camboriú (FCBC), como tantos outros, deveria ser provido por concurso público. Digo isso com a propriedade de quem viveu a experiência. Quando fui nomeado em 2017 pelo prefeito Fabrício, a insegurança foi imediata: eu vinha de um trabalho crítico, com entrevistas sobre política, e de repente estava do outro lado. Senti o peso da responsabilidade, mas logo compreendi que a cultura não é apenas evento como muitos pensam, mas sobretudo, é política pública.
O Vazio das Atribuições
Ao tentar descobrir minhas funções no papel, percebi uma lacuna administrativa grave: não existiam atribuições documentadas para o cargo de "Coordenador de Artes". Esse "vazio" gera o risco do gestor "faz-tudo". Se o ocupante gosta de feiras, o foco é lá; se não gosta, o setor morre.
Tive que "pensar o cargo" por conta própria para dar uma resposta a mim mesmo, usando como bússola o Plano Municipal de Cultura (PMC). Ao estabelecer metas para os 11 segmentos, senti o peso real da terminologia "Arte": era como se a Literatura, o Teatro e o Patrimônio me encarassem o tempo todo, cobrando respostas que a estrutura do cargo não oferecia. Se a função tivesse um nome mais técnico, como Diretoria de Fomento e Políticas Setoriais, talvez a missão fosse mais clara e menos "mística".
A Inteligência que já temos: O Quadro Efetivo
Minha experiência me mostrou que quem sustenta as bases de Balneário Camboriú é o servidor efetivo. É um desperdício para a cidade buscar "nomes políticos" externos quando temos nomes como o Rafael Salvador (músico formado), o Douglas, a Aline, a Marília e o Guilherme.
Não haveria feira sem a dedicação da Aline nos regimentos.
Não haveria o desenho da feira na praça (as "asas", nossa Brasília medida pessoalmente) sem o olhar técnico do Guilherme.
O artesanato não seria o que é sem a curadoria da Marília.
A valorização desses servidores para cargos de diretoria não é apenas uma questão de justiça, é uma questão de eficiência administrativa. A cidade perde oportunidades quando não aproveita quem já conhece os processos e as categorias.
O Audiovisual e a Film Commission: Um Elo Perdido
É um contrassenso uma cidade com o cenário de BC e um curso de Audiovisual na Univali não ter um representante específico no poder público. A BC Filme precisa deixar de ser um "nome fantasia" no Turismo para se tornar uma estrutura de Estado.
De Decreto para Lei: O que existe hoje é um decreto de 2014, que pode ser revogado a qualquer momento. Precisamos de uma Lei que assegure a Film Commission.
O Film Commissioner: É urgente um cargo técnico focado em captar produções. O clipe "Descer pra BC" fez mais pela difusão da cidade do que anos de uma estrutura desorganizada. O retorno econômico da economia criativa (hotéis, serviços, técnicos locais) é muito maior que o investimento.
O Artesanato como Exemplo de Esforço
Cito o artesanato como o setor que carece de um olhar específico. Eu e a Sueli Hinze fomos, por muito tempo, os únicos a realizar a Carteira Nacional do Artesão aqui. Aprendi centenas de técnicas sem ser remunerado especificamente para isso, por entender a importância da categoria. A FCBC precisa de um Núcleo de Artesanato permanente, com avaliadores capacitados e uma política que diferencie o souvenir da nossa referência cultural.
Conclusão
Minha passagem pela coordenação me ensinou que a institucionalização é o único caminho para a continuidade. Precisamos de:
Concursos e atribuições claras para funções técnicas.
Valorização dos efetivos em cargos de comando.
Estruturação legal da Film Commission e dos setores técnicos.
Se eu não tivesse sido nomeado, talvez não visse a força do nosso quadro efetivo. Hoje vejo, e por isso defendo que a FCBC precisa de uma reforma que garanta que a cultura seja tratada com o rigor técnico que a nossa cidade merece.
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