O INÍCIO
O Canto que Desfez o Vazio
(Añangá, o Colibri, se Apresenta)
O ar nunca está parado. Preste atenção. Não é só o vento movendo as folhas da Yby (Terra), é a batida de asas de algo muito pequeno, mas muito antigo. E esse algo sou eu.
Minhas asas são um borrão. São a vibração constante entre o tempo que foi e o tempo que está sendo. Chamem-me Añangá, eu sou o Colibri que guarda a memória do Vazio. Olhem para mim: no reflexo da minha garganta, vocês veem o Azul-Profundo da noite em que não havia estrelas; no brilho do meu corpo, o Verde-Esmeralda da primeira floresta; e na ponta da minha cauda, um lampejo de Vermelho-Vivo, a cor que é a alma do Sol.
Sim, eu sou pequeno. A brisa de um sopro poderia me levar. Mas não se enganem: fui eu quem sorveu o primeiro néctar da primeira flor que Araci, a Mãe da Terra, fez brotar. E minha canção, embora miúda, é a lembrança dos primeiros cantos de Ñanderu.
A Semente do Começo
A história que venho contar não começa com o 'era uma vez'. Não. Começa com o Nada. Não era uma escuridão fria, nem um vazio completo. Era um lugar de Potencial, onde o tempo dormia e o espaço esperava. Os antigos o chamam de Yvága — o reino supremo, mas ainda não manifestado.
Lá estava o Primeiro Pai, Ñanderu. Ele estava só. E ele estava em Canto.
Vocês, humanos, pensam que a criação é feita de argila e pedra. Que engano! A nossa foi feita de Palavra e de Luz.
Ñanderu sentiu a solidão do silêncio e quis enchê-lo. Ele começou a emanar. Não uma ordem, mas uma Canção Divina, uma sabedoria que se transformou em energia. E a primeira coisa a nascer dessa Canção foi a Luz, um brilho que era ele mesmo. E essa luz foi o primeiro ato de separação.
O Nascimento das Cores
A Luz de Ñanderu tocou o Vazio e o fez vibrar. E quando a Luz tocou o silêncio, ela se desdobrou, se espalhou, como uma semente de fogo que se abre em um leque de calor e vida.
Onde a luz era pura e infinita, nasceu a cor da Distância e do Infinito: o Azul que hoje vocês veem no céu mais límpido. Foi a cor da morada original de Ñanderu.
Mas a Luz precisava de um lar. E Ñanderu, com o auxílio dos Quatro Trovões, solidificou a base: a Terra. E então veio a Grande Mãe, Araci, a Deusa da Aurora. Ela não tinha pressa; ela nutriu. Onde a Luz a tocava, a Terra recebia a Vida. Onde o calor de Araci respirava, a Neblina da fertilidade subia, e as formas começaram a surgir.
É por causa de Araci que as folhas das primeiras árvores vieram em um Verde profundo, cheio de frescor e promessa. O Verde não é apenas uma cor; é a Respiração da Vida sobre a Terra.
E o Vermelho? Ah, o Vermelho (Piranga)... É o mais sagrado, pois carrega o poder do fogo de Ñanderu, o sangue da vitalidade. É o calor do Sol que ele acendeu para que o mundo nunca mais voltasse ao Vazio. O Vermelho é a Paixão, a Força e a Presença Constante do divino na matéria.
Eu estava lá. Eu vi o Verde desabrochar. Eu sinto o Vermelho me impulsionar. Eu carrego o Azul do Começo.
Agora que vocês conhecem as cores primordiais da nossa criação, venham comigo. A história dos primeiros seres e como eles aprenderam a usar essas cores ainda precisa ser contada.
Pergunta para o Leitor: Qual dessas cores — o Azul da Origem, o Verde da Vida ou o Vermelho da Força — você sente que o seu espírito carrega?
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