O Poder em Suspensão: Entre o Veredito do Tribunal e a Verdade do Portão
Em Balneário Camboriú, a política costuma ser medida pela altura dos edifícios e pelo brilho das luzes da orla. No entanto, nos últimos dias, a medida do poder deslocou-se para um terreno muito mais instável: o das incertezas jurídicas e das sincronicidades domésticas.
Viver a política de perto, para além das manchetes, é entender que um mandato não é apenas um cargo, mas um estado de espírito — e, por vezes, um exercício de sobrevivência psicológica.
A Realidade dos Fatos: O Pleno Exercício
É preciso, antes de tudo, restabelecer a verdade dos fatos: o vereador Victor Forte (PL) e sua bancada permanecem em pleno exercício de seus mandatos. Ao contrário dos rumores que ecoaram com força, não houve, até este momento, uma ordem de retotalização imediata.
A defesa da chapa do PL apresenta argumentos consistentes e técnicos, sustentando a especificidade de cada candidata e refutando a tese de fraude à cota de gênero. No tabuleiro do Direito, a peça da "retotalização" permanece congelada à espera do trânsito em julgado ou de uma decisão que supere a prudência dos tribunais. Victor Forte não é um ex-vereador; ele é um parlamentar com a caneta na mão e a legitimidade do voto ainda sob sua guarda.
O "Ensaio do Fim" e a Sincronicidade
Apesar da estabilidade jurídica temporária, o campo das percepções é outro. Ontem, ao ser confrontado com a informação (depois revelada imprecisa) de que a retotalização havia sido consumada, vivi um experimento mental profundo. Por alguns instantes, o mandato de alguém com quem compartilhei convívio e em quem já depositei confiança pareceu dissolver-se.
Nesse hiato entre o boato e a realidade, mentalmente a figura de Aristo Pereira (PT) surgiu passando no meu portão com um caminhão durante a campanha e o aceno de "companheiro". Não foi um aliança oficial, mas uma sincronicidade simbólica. Aristo — o homem que a matemática aponta como o herdeiro imediato da vaga em caso de queda — estava ali, presente nesta lembrança no mesmo local/rua/portão que era o ponto de partida meu e de Victor, enquanto o detentor do cargo parecia tornar-se uma abstração jurídica.
A Reflexão sobre o Karma e a Efemeridade
Independentemente do resultado final nos tribunais, o "karma" deste momento já se manifestou. Ele não reside na perda do cargo, mas na consciência da efemeridade.
O poder é um inquilino barulhento que raramente avisa quando vai se mudar. Para quem exerce o mandato, o peso de legislar sob a sombra de uma cassação é um teste de caráter. Para quem observa, como eu, é uma lição sobre a volatilidade das posições. O encontro no portão com Aristo Pereira deixa de ser um fato político para se tornar um espelho ético:
De um lado, o poder institucional que, no encastelamento do cargo, corre o risco do esquecimento.
Do outro, a persistência da base que, mesmo sem o crachá de eleito, mantém a liturgia do cumprimento e do reconhecimento.
Conclusão: O Que Fica
A retotalização pode nunca acontecer. A justiça pode dar razão à defesa de Victor Forte e manter a soberania das urnas de 2024. Mas o que o destino já escreveu na calçada de casa é indelével.
A política é cíclica, e o maior erro de quem detém o poder é acreditar que ele é permanente. No fim do dia, quando as luzes da Câmara se apagam e os processos silenciam, o que define um representante não é o diploma guardado na gaveta, mas a qualidade da presença que ele deixa no portão de quem, um dia, o chamou de "vizinho". O resto é apenas matemática; e a matemática, como sabemos, é apenas uma das muitas linguagens que o universo usa para nos lembrar de quem realmente somos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.