Valentim fechou as cortinas de linho. Era o seu primeiro ato de secessão diária.
O Caso do Relatório Invisível
Naquela tarde, Valentim recebera uma visita em seu escritório de advocacia — uma dessas figuras que Brasília envia quando deseja "estreitar laços", o que, na língua dos burocratas, significa apertar o garrote. O emissário, um sujeito de sorriso plástico e hálito de café requentado, falara sobre "segurança nacional" e "colaboração necessária".
— O governo federal — dissera o homem, enquanto examinava uma estatueta de bronze sobre a mesa de Valentim — aprecia muito a ordem de Santa Catarina. Mas a ordem exige... transparência. Precisamos que o senhor nos abra certas janelas de seus clientes. Intimidades, entende? Pequenos desvios que garantam a lealdade de quem decide.
Valentim sentiu o cheiro de enxofre da prostituição estatal. Não pediam justiça; pediam munição para chantagem. Queriam transformar o foro íntimo em um lupanar de dossiês.
A Revolta do Silêncio
Naquela noite, sozinho em seu apartamento, Valentim não ligou a televisão. Não acessou a rede. Pegou um velho caderno de capa de couro e uma caneta-tinteiro. Se o Estado queria os seus dados, ele lhe daria o vácuo.
"A secessão," escreveu ele com caligrafia firme, "não é um mapa rasgado. É uma porta trancada por dentro. Se o governo federal deseja ser o voyeur da nossa existência, a nossa resposta deve ser a opacidade absoluta. Eles podem tributar o meu vinho, mas não podem provar o meu pensamento."
Ele lembrou-se de um cliente, um empresário de brio que fora destruído não por um crime, mas por um vídeo de alcova "vazado" por um agente que buscava uma concessão. A espionagem sexual era a nova guilhotina, mais silenciosa e muito mais suja.
O Banquete das Sombras
Valentim caminhou até a varanda, mas não abriu o vidro. Observou o reflexo de si mesmo. Ali estava um cidadão de Santa Catarina, um homem que pagava seus impostos com a pontualidade de um condenado, mas que guardava a sua alma como um segredo de estado.
— Eles querem nos prostituir — murmurou ele para o próprio reflexo. — Querem que entreguemos a nossa vergonha para que eles nos devolvam uma segurança de papel.
Ele imaginou uma Santa Catarina diferente.
Não uma que erguesse exércitos na fronteira, mas uma que apagasse as telas. Uma terra de homens ilegíveis. Se Brasília enviasse seus espias, encontraria apenas rostos cordiais e mentes impenetráveis. Seria a
Secessão da Indiferença.
"O Estado é um convidado que, de tanto tempo na sala, passou a acreditar que é o dono do quarto. O erro é nosso, que esquecemos onde guardamos a chave."
O Epílogo da Gaveta
Valentim terminou sua nota. Não a enviaria para jornal algum. Guardou-a em uma gaveta de fundo falso, uma daquelas que não possui conexão Wi-Fi nem registro em nuvem.
Lá fora, um drone da polícia passava lentamente entre os prédios, com sua luz vermelha piscando como o olho de um ciclope moderno. Valentim sorriu com o canto da boca — um sorriso puramente machadiano. O drone via o concreto, via o vidro, via o metal. Mas não via o que Valentim acabara de escrever.
Naquela noite, o Dr. Valentim dormiu o sono dos justos e dos secessionistas. O Estado continuava lá, imenso e lúbrico, mas, para todos os efeitos de inteligência e monitoramento, Valentim tinha deixado de existir. Ele era, finalmente, um homem livre.
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