sexta-feira, 6 de março de 2026

A Retotalização do Olhar: O Que os Tribunais Não Dizem sobre a Política de Balneário Camboriú

A Retotalização do Olhar: O Que os Tribunais Não Dizem sobre a Política de Balneário Camboriú

Neste final de semana, Balneário Camboriú respira uma atmosfera de "suspense institucional". Na segunda-feira, 9 de março, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SC) poderá dar um veredito que alterará um terço da composição da nossa Câmara de Vereadores. Mas, enquanto os advogados se debruçam sobre as tecnicalidades da Súmula 73 do TSE e as fraudes em cotas de gênero, convido o leitor a uma reflexão que as planilhas de quociente eleitoral não alcançam: a ética da presença.

O poder político é, por definição, um exercício de convívio. Entretanto, o que assistimos com frequência é o fenômeno da "amnésia do mandato". Refiro-me ao representante que, após conquistar o voto, sofre uma espécie de distanciamento geográfico e profissional. O vereador Victor Forte, por exemplo, é alguém que compartilha do meu mesmo ponto de partida, da mesma vizinhança. No entanto, ao longo do exercício de sua função, parece ter negligenciado o elo mais básico da democracia: o reconhecimento de quem está ao seu lado. Quando um político "esquece" do próprio povo, ele rompe o cordão umbilical que legitima sua cadeira.

Por uma dessas ironias poéticas que só a política é capaz de arquitetar, o destino aponta para um substituto que trilha o caminho inverso. Recordo-me com clareza de Aristo Pereira, segundo nome na ordem de substituição do PL, passando em um caminhão de campanha em frente à minha casa. Sem o peso do cargo, mas com o peso da história, ele me cumprimentou como "companheiro".

Aquele gesto, no portão de casa, representa o que chamo de representatividade de calçada/casa. Enquanto um nome se apaga pela negligência do isolamento no gabinete, o outro se reafirma pela persistência do reconhecimento na rua. O termo "companheiro", pilar da retórica de Aristo, sugere horizontalidade — a ideia de que o representante e o representado caminham no mesmo nível.

A retotalização de votos que pode ocorrer na segunda-feira não é, portanto, apenas um ajuste aritmético do sistema eleitoral. Ela é, simbolicamente, uma auditoria de atenção. Se a justiça retirar o mandato de quem se ausentou para entregá-lo a quem soube enxergar o cidadão no portão de casa, ela estará restaurando uma ordem natural que a arrogância do poder costuma ignorar.

A lição deste final de semana de vigília é clara para todo aquele que ocupa ou deseja ocupar uma cadeira na "Dubai Brasileira": a altura do prédio onde você circula nunca será mais importante do que o chão onde você pisa. O mandato é um empréstimo temporário, e quem ignora o vizinho acaba, inevitavelmente, perdendo a chave da cidade.
Independente de ideologias ou siglas, o que Balneário Camboriú espera na segunda-feira não são apenas novos vereadores, mas o retorno de um Legislativo que saiba, acima de tudo, olhar nos olhos de quem o elegeu.


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