A Retotalização do Chão: Quando a Calçada Antecipa o Tribunal
O sistema político brasileiro costuma ser lido através de planilhas, quocientes eleitorais e decisões gélidas de tribunais. No entanto, em cidades como Balneário Camboriú, onde a proximidade é a unidade de medida da confiança, a política acontece verdadeiramente no nível do asfalto.
A iminente decisão do TRE-SC sobre a vaga na Câmara Municipal — que coloca em xeque o mandato de Victor Forte em favor de Aristo Pereira — revela uma sincronia que vai além do processo jurídico por fraude de cota de gênero. Ela revela o que podemos chamar de "Justiça da Presença".
O Vácuo e a Ocupação
A política, assim como a natureza, abomina o vácuo. O relato de que um mandatário "esqueceu" suas bases é o diagnóstico de uma ruptura ética. Quando o eleito sobe o elevador social e institucional do poder e deixa de enxergar quem está no portão, ele perde a sua maior defesa: a legitimidade do território.
A ironia poética desta sincronia manifestou-se de forma quase premonitória. Antes mesmo do veredito final, a figura de Aristo Pereira atravessou a geografia pessoal do cidadão para chamá-lo de "companheiro". Esse gesto, simples e ancestral, marca o contraste:
De um lado, a negligência: O poder que se isola na redoma de vidro.
Do outro, o reconhecimento: A política que ainda sabe o nome do vizinho e reconhece o igual.
A Auditoria da Atenção
Se a retotalização de votos se confirmar nesta segunda-feira, o tribunal estará apenas chancelando uma transição que a "geografia do afeto" já havia sinalizado. A cassação, sob esta ótica, não é apenas um acerto de contas com a lei eleitoral, mas uma auditoria de presença.
O recado para os navegantes da política local é claro: o mandato é um empréstimo temporário, e os juros são pagos com a moeda da atenção. Quem não vê o povo no dia a dia, acaba por ser "desvisto" pela própria sorte política.
Conclusão
Enquanto os advogados debatem teses jurídicas, a rua já deu o seu veredito. A troca de cadeiras no legislativo — se ocorrer — será o encontro da "frieza dos autos" com o "calor do reconhecimento". Afinal, a política pode até tentar morar nos prédios mais altos da Avenida Atlântica, mas ela só sobrevive se souber descer para tomar um café na calçada de quem a colocou lá.
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