A Justiça de Calçada: O Colapso do Gabinete Tecnocrata e a Ascensão de Aristo Pereira
O cenário político de Balneário Camboriú registrou hoje um desfecho que servirá de estudo de caso para o Direito Eleitoral e a Ciência Política em Santa Catarina. A publicação da Edição nº 31 do Diário da Justiça Eleitoral (DJE) formalizou o que meses de instrução processual indicavam: a retotalização de votos que retira o mandato de Victor Forte (PL) e reconduz o veterano Aristo Pereira (PT) à Câmara Municipal.
Para além do mero cálculo de quociente partidário, a decisão do TRE-SC — sob o rigor da nova cúpula empossada nesta tarde — expõe as vísceras de um modelo de gestão que tentou substituir a presença territorial pela tecnocracia de gabinete e o marketing de influência.
O "Vício de Origem" e a Fraude de Gênero
A queda do parlamentar do Partido Liberal não foi um acidente, mas o resultado de um vício estrutural. O Processo Judicial Eletrônico (PJe) detalhou como a chapa foi montada sob o signo da fraude à cota de gênero. Ao utilizar candidaturas femininas fictícias ("laranjas") apenas para viabilizar um projeto majoritariamente masculino e falocêntrico, o partido comprometeu a legitimidade de toda a sua bancada.
O impacto é sistêmico: como o registro da chapa (DRAP) foi anulado na origem, a insegurança jurídica agora assombra até mesmo mandatos de alta votação, como os 3.033 votos de Jair Renan Bolsonaro, que permanecem sob vigilância extrema dos órgãos de controle.
O Gabinete Falocêntrico vs. A Antropologia da Calçada
A análise do gabinete de Victor Forte revela uma estrutura que mimetizou as piores práticas da "sociedade das aparências". Com uma assessoria marcadamente homogênea e focada em uma lógica de poder institucional e macro-política, o parlamentar permitiu o que especialistas chamam de negligência territorial abdicando a política do cotidiano.
Enquanto o gabinete operava como uma bolha de vidro, desconectada das demandas reais dos bairros e da diversidade da cidade, o mundo real acontecia na calçada. Foi nesse vácuo de presença que a figura de Aristo Pereira se fortaleceu. Sem os recursos de uma grande máquina de marketing, Aristo manteve o que a política moderna muitas vezes despreza: o reconhecimento mútuo. Ao saudar o morador como "companheiro" no portão de casa, ele preservou o elo que Forte rompeu ao se encastelar na tecnocracia.
As Perdas para o Município
O custo desse modelo para Balneário Camboriú foi alto. A cidade perdeu tempo legislativo com representantes cuja base ética era inexistente. Pautas sociais, de urbanismo e infraestrutura foram secundarizadas em favor de uma estética de poder falocêntrica que priorizou a imagem sobre a substância.
A retotalização de hoje é a resposta do sistema a esse desequilíbrio. A vaga fluiu para quem nunca saiu da rua. Aristo assume não apenas como um nome da oposição, mas como o porta-voz da "Justiça de Calçada", das ruas, da Praça (O Povo).
Lições do 9 de Março
O adeus à Victor Forte deixa três lições fundamentais para a classe política:
Fraude não é estratégia: A exclusão real das mulheres da política agora derruba chapas inteiras.
Gabinete não é bunker: A assessoria que não entende a pluralidade da cidade torna o vereador cego e vulnerável.
A presença é soberana: Na política local, o aperto de mão sincero ou o aceno verdadeiro no portão ainda vale mais do que mil postagens sem alma.
O retorno de Aristo Pereira marca a vitória da constância, da política real, sobre o marketing e aparências, devolvendo a cadeira legislativa a quem entende que o mandato é, antes de tudo, um serviço de proximidade.
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