O Paradigma de Abraão e Ló: A Geografia da Abdicação como Caminho para a Paz
No coração das narrativas fundacionais do Oriente Médio, reside um episódio de pragmatismo ético que desafia milênios de conflitos territoriais. Quando as pastagens de Canaã tornaram-se insuficientes para sustentar os rebanhos de Abraão e de seu sobrinho Ló, o patriarca não recorreu à força, à primogenitura ou ao direito divino para expulsar o outro. Em vez disso, ele proferiu uma frase que deveria ser o preâmbulo de qualquer tratado de paz moderno:
"Se escolheres a esquerda, eu irei para a direita; e se a direita escolheres, eu irei para a esquerda."
Esta não é apenas uma lição de cortesia familiar; é uma lição prática de negociação e partilha de espaço que oferece uma saída para o impasse entre Israel e Palestina.
1. A Coragem de Ceder o Primeiro Passo
A proposta de Abraão quebra a lógica da "soma zero", onde o ganho de um lado é obrigatoriamente a perda do outro. Ao dar a Ló a prioridade da escolha, Abraão introduz o conceito de soberania compartilhada através da distinção. Ele reconhece que a convivência forçada sob tensão constante é pior do que a separação organizada em paz.
Para o futuro da região, isso sugere que a segurança e a dignidade nacional não dependem da posse de todo o território, mas da capacidade de garantir que o espaço que resta seja viável e respeitado.
2. A Terra como Recurso, não como Ídolo
Quando Abraão propõe a divisão, ele trata a terra como um recurso para a vida, e não como um objeto de adoração que justifica a morte. No contexto atual, a "esquerda" e a "direita" bíblicas traduzem-se em fronteiras, recursos hídricos e controle de segurança.
A lição de Abraão para israelenses e palestinos é que a "Terra Prometida" deixa de ser uma promessa quando se torna um cemitério para seus filhos. A partilha de espaço exige que ambos os povos vejam o mapa não como um gráfico de conquista, mas como um mosaico de coexistência.
3. A Ética da Vizinhaça
O gesto de Abraão ensina que ser um vizinho é mais do que habitar ao lado; é garantir que o outro tenha o necessário para subsistir.
Para Israel: Significa reconhecer que um Estado Palestino soberano e próspero na "esquerda" ou na "direita" é a maior garantia de sua própria segurança.
Para a Palestina: Significa entender que a presença de Israel é uma realidade que exige uma delimitação clara e pragmática para que a sua própria autodeterminação floresça.
Conclusão: O "Espaço de Abraão"
O futuro de Israel e da Palestina depende de recuperarem essa sabedoria ancestral. A paz não surgirá de uma vitória militar que apague o outro, mas da coragem abraâmica de dizer: "Há espaço para nós dois, desde que estejamos dispostos a não ocupar o lugar do outro".
A proposta de coexistência é, em última análise, um ato de fé no futuro. É a compreensão de que, se somos "irmãos" — seja por sangue, por fé ou por destino geográfico — a nossa maior posse não é a terra que pisamos, mas a paz que deixamos para os que virão.
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